24 fevereiro 2026 - 09:16
«Desintoxicação Digital» no mês sagrado do Ramadã

Na era de uma peste silenciosa, onde as telas luminosas arranham a alma e injetam ansiedade, o mês do Ramadã não é apenas o banquete de Deus, mas também uma oportunidade para a «desintoxicação do espírito». O jejum é um exercício de abandonar hábitos destrutivos — desde a alimentação, até os desejos da alma e até mesmo estas telas infinitas.

Abna Brasil: Hujjat al-Islam wa al-Muslimin Mohammad Hossein Amin, escritor e pesquisador religioso, em um artigo exclusivo para a Abna, analisa a natureza e as estratégias da desintoxicação digital durante o mês sagrado do Ramadã.

No mundo acelerado de hoje, as redes sociais e as telas sensíveis ao toque tornaram-se uma parte inseparável da vida — a ponto de, às vezes, respirar no espaço virtual ter prioridade sobre respirar no mundo real. Pesquisas científicas confiáveis mostram que o uso sem propósito e viciante dessas plataformas pode levar ao aumento da ansiedade social, à redução da qualidade do sono e da autoestima, e até ao surgimento da depressão[1]. Porém, em contraste, o Ramadã, com sua mensagem divina, traz uma prescrição curadora para esta doença exaustiva da alma.

O Alcorão Sagrado explica a filosofia do jejum da seguinte forma:

«Ó vós que credes! Foi-vos prescrito o jejum, assim como foi prescrito aos que vieram antes de vós, para que alcanceis a piedade (taqwā)»[2].

A taqwā significa o poder do autocontrole e da contenção interior. Este texto explora a conexão entre esses dois mundos e mostra como o jejum pode ser a melhor oportunidade para uma «desintoxicação digital» profunda e duradoura.


Ansiedade dentro da moldura: o que a ciência diz sobre os danos do espaço virtual

Antes de buscar o tratamento, é necessário reconhecer a ferida. As ondas eletromagnéticas e as notificações intermináveis têm como alvo a mente humana moderna.

Diversos estudos demonstram uma relação significativa e preocupante entre o vício em internet e os transtornos psicológicos. Um estudo realizado com estudantes de ciências médicas em Mashhad mostrou uma correlação positiva significativa entre o vício em internet e a depressão (r=0,518). Isso significa que quanto maior a dependência da internet, maior o nível de depressão[3]. Este dado é um sinal de alerta para a geração digital.

O problema não se limita à depressão. Outras pesquisas mostram que o uso excessivo e sem propósito das redes sociais pode aumentar a ansiedade social e reduzir a qualidade do sono[4]. Olhos que permanecem fixos na tela do celular até tarde da noite despertam pela manhã com fadiga e inquietação. Este ciclo vicioso drena a energia psicológica e afasta a pessoa da vivência do momento presente.

Embora algumas pesquisas mais recentes enfatizem a complexidade dessa relação e não considerem apenas o tempo de uso como causa direta, reconhecem que adolescentes com ansiedade podem recorrer às redes sociais em busca de alívio — um refúgio que, paradoxalmente, intensifica ainda mais a ansiedade[5].


Da fome ao autocontrole: o segredo divino do domínio da alma

Por outro lado, o Ramadã apresenta um programa abrangente para fortalecer o «comandante interior» do ser humano. O jejum não é apenas abster-se de comer e beber, mas um laboratório de reconstrução da vontade.

O primeiro passo é o exercício contínuo de dizer «não». Aquele que, durante trinta dias consecutivos, resiste à fome e à sede do amanhecer ao pôr do sol, fortalece gradualmente o «músculo da vontade». O Líder da Revolução Islâmica, ao explicar o versículo «para que alcanceis a piedade», afirma que taqwā significa «cautela» e «consciência». Assim como um motorista em uma estrada perigosa observa cuidadosamente cada curva, o crente também observa a presença de Deus e não se desvia do caminho correto[6]. Este poder de autoconsciência é a mesma força que pode resistir à tentação de «um scroll sem propósito».

O segundo fruto do Ramadã é a «vontade que rompe bloqueios». O Alcorão promete:

«E quem temer a Deus, Ele lhe abrirá uma saída»[7].

O vício digital é um tipo de bloqueio psicológico. A pessoa sabe que está desperdiçando tempo, mas não consegue parar. A taqwā fortalecida durante o Ramadã é exatamente essa «saída» prometida por Deus. O jejum nos ensina que podemos dominar nossos impulsos instintivos; se podemos vencer a fome e a sede, também podemos vencer o hábito de verificar constantemente o celular[8].


Programa de 30 dias: do hábito à adoração, passo a passo com o Ramadã

Agora é o momento da prática. Este programa de trinta dias combina fundamentos espirituais e estratégias psicológicas práticas, ajudando você a sair deste mês com uma alma purificada e uma vontade fortalecida[9].

Primeira semana: Consciência e redução da dependência (dias 1 a 7)

Nesta semana, apenas observe seus hábitos. Ative aplicativos como «Digital Wellbeing» (Android) ou «Screen Time» (iPhone). Todas as noites, verifique seu relatório de uso diário. Desative notificações desnecessárias. Esta é a semana de «compreender», não de «cortar». A autoconsciência é o primeiro passo da purificação[10].


Segunda e terceira semanas: Criar limites inteligentes (dias 8 a 21)

Agora que você conhece o inimigo, é hora de controlá-lo. Use aplicativos como StayFree, Opal ou QualityTime para estabelecer limites diários para aplicativos que consomem muito tempo[11].

Por exemplo:

  • Limite o Instagram a 30 minutos por dia
  • Defina dois horários específicos para uso do celular (por exemplo, após o iftar e antes do suhur)
  • Mantenha o celular fora de alcance durante o resto do tempo

Substitua o tempo liberado por:

  • Leitura do Alcorão
  • Súplicas e oração
  • Caminhadas
  • Conversas com a família

Assim como o jejum ativa processos de purificação física, ele também pode purificar os hábitos da alma[12].


Quarta semana: Consolidação e libertação da dependência (dias 22 a 30)

Nos dias finais, teste sua nova força. Tente passar um dia inteiro no «modo avião», usando o celular apenas quando necessário. Substitua o mundo digital por atividades espirituais e sociais.

Especialmente nas Noites do Decreto (Laylat al-Qadr), desligue o celular e concentre-se totalmente na adoração[13].

Após trinta dias, você alcançará um ponto em que o celular deixará de ser um «vício involuntário» e se tornará um «instrumento sob seu controle». Esta é a verdadeira libertação — a vitória prometida por Deus aos que possuem taqwā[14].

Notas de rodapé:

[1]. Investigação sobre o impacto das redes sociais na saúde mental dos adolescentes, Conferência Nacional de Estudos Modernos em Gestão e Empreendedorismo, 1404 (calendário persa). Este artigo, utilizando um método descritivo-analítico, demonstra que o uso excessivo e sem propósito das redes sociais pode levar ao aumento da ansiedade social, à redução da qualidade do sono e à diminuição da autoestima.

[2]. Alcorão Sagrado, Surata Al-Baqarah (2), versículo 183:
«Ó vós que credes! Foi-vos prescrito o jejum, assim como foi prescrito aos que vieram antes de vós, para que alcanceis a piedade (taqwā)».
Este versículo apresenta o objetivo final do jejum como sendo o alcance da taqwā (autocontrole e consciência espiritual).

[3]. Sorudi, Setareh; Mostafapour, Samaneh; Olumi, Shabnam. O impacto do uso das redes sociais na depressão entre estudantes da Faculdade de Ciências Paramédicas de Mashhad, Revista Horizonte do Desenvolvimento da Educação em Ciências Médicas, 1400 (calendário persa). Os resultados mostraram uma correlação positiva significativa moderada (r=0,518) entre o vício em internet e a depressão.

[4]. Investigação sobre o impacto das redes sociais na saúde mental dos adolescentes, mesma fonte.

[5]. Um estudo recente desafia o medo do tempo de tela, Euronews Persian, 16 de janeiro de 2026. Uma pesquisa da Universidade de Manchester indica que adolescentes com sintomas de ansiedade podem recorrer às redes sociais em busca de segurança emocional ou regulação do humor.

[6]. Base oficial de preservação e publicação das obras do Aiatolá al-Uzma Khamenei (que sua sombra perdure), notas relacionadas ao versículo 183 da Surata Al-Baqarah. Ele define taqwā como «consciência e consideração constante da presença de Deus» e menciona as promessas corânicas, como a concessão de uma saída (makhraj) para aqueles que possuem taqwā.

[7]. Alcorão Sagrado, Surata At-Talaq (65), versículo 2.

[8]. Ramadã: o treinamento do autocontrole humano, workshops educacionais do Congresso 60, 16 de Bahman de 1404 (calendário persa). Nesta sessão, foi explicado o processo de autofagia celular, através do qual o corpo purifica células doentes e restaura sua saúde.

[9]. Como reduzir o uso do celular durante o jejum?, Clube de Jovens Jornalistas. Estratégias como definir horários específicos de uso, desativar notificações desnecessárias, manter o celular longe durante o sono e substituir o uso digital por atividades benéficas.

[10]. Mesma fonte.

[11]. Melhores aplicativos para limitar o uso do celular e controlar o tempo de tela, Zoomit. Introdução a aplicativos como StayFree, Digital Wellbeing, Opal e QualityTime, utilizados para o gerenciamento do tempo de uso.

[12]. Ramadã: o treinamento do autocontrole humano, mesma fonte.

[13]. Como reduzir o uso do celular durante o jejum?, mesma fonte.

[14]. Alcorão Sagrado, em diversos versículos menciona a salvação daqueles que possuem taqwā, incluindo a Surata Al-Baqarah (2), versículo 189:
«E temei a Deus, para que alcanceis o sucesso».

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